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24 de abril de 2024 - 12:51

Uma cidade chamada Morena

Campo Grande, uma terra de oportunidades e efervescência cultural e política que, apesar da multiplicidade de costumes e tradições, moldou sua própria identidade

Avenida Afonso Pena na área do Parque das Nações Indígenas (Foto: Chico Ribeiro)

Diz a história que a notícia da existência de terras férteis em uma região chamada Campos de Vacaria chamou a atenção de moradores do Triângulo Mineiro, que procuravam glebas das quais pudessem se apossar. Entre eles estava José Antônio Pereira, primeiro a montar acampamento nas terras onduladas da Serra de Maracaju, na confluência dos córregos Prosa e Segredo – hoje Horto Florestal. Toda cidade tem sua história ligada a um princípio, um porto ou uma estação de estrada de ferro. Campo Grande nasceu diferente, em pleno sertão.  

De volta ao momento atual, fica claro que a história se revela por si mesma, no presente. Passados um século e duas décadas, quase tudo em Campo Grande remete à sua história. A principal avenida, os parques, os museus, o comércio e o modo de vida, que reúne os mais diversos costumes. Afirmou-se com a convergência de várias culturas em terra de oportunidades e efervescência cultural e política. Apesar da multiplicidade de costumes e tradições, moldou sua própria identidade, sem deixar de preservar os traços históricos e de cultuar tradições trazidas pelos imigrantes.

Monumento do Cavaleiro Guaicuru no Parque das Nações Indígenas (Foto: Portal do Imasul)

A possibilidade de contemplar animais na natureza e vislumbrar no horizonte imponentes torres indicando o progresso faz de Campo Grande uma das melhores cidades para se viver. Principalmente porque o progresso se busca não mais sem medir impactos, mas de forma harmônica, dentro de um novo conceito de desenvolvimento – a sustentabilidade. 

Gesto simples como o passeio na Avenida Afonso Pena, que é repetido por gerações, se tornou tão emblemático que o local, além de palco político e de manifestações populares, virou cenário das expressões artísticas. A cultura, tão miscigenada, se assentou também na revitalização do rico patrimônio histórico, valorização da culinária, do artesanato e da produção intelectual, através da música, dos monumentos, retratando a fauna dos Cerrados e do Pantanal, e das artes plásticas com traços da bovinocultura. 

Rua 14 de Julho (Foto: Arquivo Histórico de Campo Grande)

Antes do descobrimento das terras férteis irrigadas pelos córregos Prosa e Segredo, por volta de 1870, a região já tinha sido habitada por índios e caçadores pré-históricos. É o que diz o arqueólogo Gilson Martins, que durante dois anos fez escavações na área do Parque das Nações Indígenas, descobrindo ali um dos maiores sítios arqueológicos de Campo Grande. 

“Os índios também não tinham uma coexistência pacífica entre eles. Eram grupos e sistemas culturais bem distintos na língua, na mitologia, nos hábitos e também no espaço. Cada um tinha o seu território e defendia o seu território como qualquer povo faz”, conta o arqueólogo sobre a área onde, coincidentemente, está instalado o Museu Dom Bosco – da História Natural, que também já se chamou Museu do Índio.  

Museu José Antonio, primeira habitação da Fazenda Bálsamo, onde o fundador de Campo Grande criou sua família (Foto: Edmir Conceição)

 “Uma légua a mais e entramos em um campo grande. Esta extensa campina constitui o vastíssimo chapadão de mais de 50 léguas de extensão”, descreveu em 1867 o tenente Alfred Taunay, que depois ficou famoso como o Visconde de Taunay. “Ele foi por cima de um morro comprido até onde, mais ou menos, fica a Universidade Católica Dom Bosco hoje. O caminho natural era passando aqui por esse terreno onde hoje fica o Colégio Militar”, conta o coronel e professor Francisco José Mineiro Júnior.  

Ninguém imaginava que a história tão distante poderia ter passado tão perto.  “É bom mostrar para os alunos que a história está no dia a dia. A importância dela não está em decorar um monte de datas e nomes, mas perceber o quanto esses nomes e fatos que aconteceram há 100, 200 ou mil anos influenciaram no dia a dia”, ensina o professor. 

Busto de José Antônio na Avenida Afonso Pena (Foto: Edmir Conceição)

A história vista de perto parece ter deixado novas marcas. O padroeiro de Campo Grande é Santo Antônio até hoje. A fé era a única vacina contra uma epidemia que se abateu em Paranaíba. E foi Santo Antonio que deu nome à Vila que se formava nos campos de vacaria. O curioso é  que em razão do atraso do correio, ninguém soube da resolução do governo que elevou a Vila de Santo Antonio de Campo Grande à condição de município. Poderia ter tido festa, catira e polca paraguaia. O ano era 1899. O dia, 26 de agosto. A partir do século de 1900 iniciou-se o processo de ocupação, que segue até hoje, tendo bovinocultura como forte atividade econômica no moderno mundo do agronegócio. 

Feição cultural

Praça do Rádio Clube (Foto: Mapionet)

A imigração, que se desencadeou no início do século XX em razão das necessidades de mão-de-obra nos campos e nas cidades teve papel fundamental na moldagem e na irmação da identidade cultural de Campo Grande. Uma afirmação tão forte que a Cidade Morena, assim apelidada devido o tom avermelhado do solo,  chegou a inspirar o morenismo, movimento que buscava realçar esse perfil nascido da miscigenação, mas não prosperou porque já estava delineada, com a junção das várias culturas, costumes e tradições de seus habitantes, a identidade mestiça da cidade. Campo Grande juntou as culturas dos espanhóis, italianos, portugueses, japoneses, sírio-libaneses, armênios, paraguaios, bolivianos, negros e índios e a qualidade de vida acabou por atrair pessoas de vários outros estados do Brasil, especialmente dos vizinhos São Paulo, Paraná e Minas Gerais, além do Rio Grande do Sul.

É de Terenos, a 20 quilômetros de Campo Grande, o primeiro registro da chegada de imigrantes. Nas primeiras décadas do século XX, os espanhóis chegaram a Campo Grande. Depois vieram os italianos e os japoneses. Com o final da construção da antiga NOB (Ferrovia Noroeste do Brasil) entre 1914 e 1915, muitos japoneses se fixaram em Campo Grande.  

Como havia deficiência na produção de hortifrutigranjeiros na região e os preços dos alimentos eram exorbitantes, um grupo de sete famílias formou um núcleo de colonização que se chamou Mata do Segredo, e foram estes pioneiros que impulsionaram o surgimento de outros núcleos de imigrantes japoneses na região.  A venda de frutas e verduras ainda hoje se concentra nas mãos dos japoneses e seus descendentes  no Mercado Municipal e na Feira Central, ponto turístico de degustação e palco do tradicional festival de sobá.

Relógio no cruzamento da rua 14 de Julho com a avenida Afonso Pena (Foto: ARCA)

O deslocamento dos paraguaios para Campo Grande, no início do século passado, foi motivado pela busca de emprego e estabilidade econômica. Eles fixaram residência na Vila Carvalho, que já foi conhecida como Vila Paraguai. Dedicaram ao trabalho na lavoura, com a madeira, em serralherias e nas charqueadas.

Finalmente, em 1912/1913 chegaram os sírios, libaneses e portugueses. Fugindo das guerra, sírios, libaneses, turcos e armênios desembarcaram no porto de Santos e, de lá, pela ferrovia, chegavam ao porto de Corumbá. Em Campo Grande, instalaram suas lojas na rua 14 de Julho, avenida Calógeras e rua 26 de Agosto.

A influência de todos esses povos  um povo alegre, festeiro e religioso hoje é percebida em nossa cultura, economia e gastronomia de forma significativa. 

Memória 

A versão digital do relógio da 14 de Julho revitalizada (Foto: Aurélio Miranda)

Como a história só vale se for testemunha do tempo, a preocupação em resgatar a memória se reflete não apenas nas manifestações artísticas e culturais, mas também por meio dos patrimônios históricos, com a restauração de prédios históricos, do início do século passado, que têm relação com a cultura e processos de desenvolvimento econômico e social da cidade. O Museu Arqueológico revela, por exemplo, que antes mesmo do descobrimento do Brasil os índios Guaicurus dominavam toda a região do Pantanal.  

Da agricultura de subsistência ao manejo do gado no Pantanal, dos rituais de caça e pesca ao artesanato. As atividades dos índios têm significado econômico e ganham incentivos do poder público. A presença é tão forte que Campo Grande incorporou aldeias urbanas ao seu processo de desenvolvimento na efervescência cultural vem a contribuição da produção artesanal. É por meio da produção artesanal que as principais etnias expressam seus costumes e moldam a cultura campograndense. 

Monumentos

Busto de Harry Amorim Costa no Parque das Nações Indígenas (Foto: Edmir Conceição)

Os monumentos também preservam os elementos da formação cultural, como o Carro de Boi, que mostra a influência da bovinocultura e registra o início do povoado, por volta de 1872.  Vindos de carros de boi, os pioneiros iniciaram a formação do povoado, construindo seus primeiros ranchos no local então conhecido como Mato Cortado. A obra, idealizada pela pela artista plástica Neide Ono, é composta de peças fundidas em alumínio e metal dourado sobre fundo de granito preto. 

A forte figura do fundador de Campo Grande também em outros monumentos, incluindo a família, retratada na escultura em pedra granito no pátio do museu José Antônio Pereira, identifica a cultura campo-grandense. O processo de desbravamento e a ocupação, aliadas à vocação agropastoril, definiram o DNA cultural de Campo Grande, para onde se converge a maior parte das produções artísticas, seja pela música, seja por intermédio das artes plásticas, artesanato e dança. 

A influência estética popular na maioria do artesanato regional pode ser percebida nas peças de cerâmica indígena (Terena e Kadiwéu) e nos trabalhos em madeira que pode ir de móveis aos utilitários em forma de gamelas, ou nos entalhes dos animais silvestres do Pantanal e do Cerrado. Os trabalhos em fibras naturais feitos com palhas de ilho, juta ou salsaparrilha em traçados torcidos, são tão atraentes quanto os de tecelagem em redes, colchas, tapetes e faixas vindos de diversas regiões do Estado.

Espaços públicos 

Vista aérea do Parque das Nações Indígenas (Foto: Divulgação PMCG)

A qualidade de vida em Campo Grande faz da cidade um centro de bem estar e a valorização dos parques e praças reforçam essa condição da cidade chamada Morena. Destacam-se os parques das Nações Indígenas, Soter, Jacques da Luz, Ayrton Senna, Anhanduí, Prosa e Mata do Segredo. 

Parque do Prosa (Foto: Saul Schramm / Subcom)

O Parque das Nações Indígenas é um dos maiores de área urbana, com 119 hectares, com infra-estrutura adequada para a prática de lazer e esporte. Possui uma pista asfaltada para caminhada de 4.000m, quadra de esportes, pátio para skate e patins, sanitários, lanchonetes, policiamento e um grande lago formado próximo à nascente do córrego Prosa, com plataforma de contemplação, e Concha Acústica. Cerca de 70% da vegetação do parque é formada por gramas e árvores ornamentais que fazem parte do projeto de paisagismo do parque. Uma grande quantidade de espécies de árvores é preservada, como jenipapo, mangueira e aroeira.

O Parque dos Poderes possui como característica a paisagem do cerrado. Os prédios que abrigam os diversos setores da administração estadual nas três esferas de poder estão distribuídos ao longo das avenidas, em perfeito equilíbrio ambiental. Destacam-se na paisagem a Torre da TVE Cultura-MS e seu prédio,  chamado de “nave no Cerrado, e o Centro de Convenções Rubens Gil de Camilo.

Dirigir no parque à noite exige atenção para não atropelar algum animal (lobinhos, quatis e tatus) que mora na reserva vizinha, o Parque do Prosa. E também de dia, porque o parque é tomado pelos ciclistas e adeptos de caminhadas. Em fim-de-semana é fechado para garantir segurança aos pedestres. Toda a área é bem sinalizada alertando sobre a presença de animais silvestres na pista.

A população desfruta ainda do Parque Ecológico do Sóter, Parque Estadual Mata do Segredo, Parque Florestal Antônio de Albuquerque (Horto Florestal), Parque Jacques da Luz, Praça Ary Coelho,  Praça Cuiabá, Praça das Araras,  Praça Esportiva Belmar Fidalgo,  Praça dos Imigrantes, Praça Lúdio Martins Coelho,  Praça Oshiro Takemori, Praça do Rádio  e Praça Vilas Boas, conhecida também como Praça do Peixe, situada em um dos diversos corredores gastronômicos da Capital.

Carro de Boi, marco do inicio do povoamento de Campo Grande (Foto: Divulgação)

Os monumentos também são marcos fundamentais da história de Campo Grande, com traços arquitetônicos que identificam épocas da evolução urbana, como o Monumento do Aviador, ao Índio Guaicuru, Imigração Japonesa, Carro de Boi, Pantanal Sul e Relógio Central na esquina da rua 14 de Julho com a avenida Afonso Pena.

Sabor, música e cultura

No conjunto de legados, incluem-se a música e a culinária, componentes da ‘genética’ cultural. Campo Grande é uma dessas cidades de identidade mestiça que se afirmam, sobretudo, pela música e suas comidas. As músicas associadas a polcas, guarânias e rock embalam um cardápio plural e exótico na culinária que nasceu híbrida, com produtos e preparos portugueses, indígenas, africanos, asiáticos e hispânicos. E um dos centros de difusão cultural e irradiador das manifestações artísticas em TVE Cultura.

Torre da TVE Cultura MS, entre as maiores em alvenaria da América Latina, é uma das atrações turísticas de Campo Grande. (Foto: Arquivo/Portal da Educativa)

Em Campo Grande é possível reunir, numa única mesa, o sobá da região central, o porco no rolete apreciado ao norte, a sopa paraguaia comum no sul, a linguiça de Maracaju típica do sudoeste, o peixe a pantaneira na telha do lado oeste e o arroz com gariroba e frango ao molho pardo com quiabo e pimenta malagueta, além do arroz com pequi herdados dos vizinhos mineiros e goianos.  

Alguns pratos, no entanto, têm a preferência em todas as regiões – chipa (pão de queijo frito ou assado), churrasco com mandioca e “sopa” paraguaia, que na verdade é um bolo de queijo, milho e cebola, iguaria indispensável na mesa dos sul-mato-grossenses. Tudo isso depois de uma sessão de tereré, a bebida mais popular no Paraguai e também em Campo Grande, motivo para um batepapo na roda de amigos. Um hábito interrompido momentaneamente devido a pandemia de Covid-19, mas que ao lado de outras manifestações e costumes dão o contorno da identidade dessa cidade chamada Morena.

 

(Foto da capa: Edemir Rodrigues)

 

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