Pesquisa desmistifica a cola em prova escrita e a apresenta como estratégia docente

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Há décadas, professores tentam encontrar meios de dificultar a cola em provas escritas. Isso demanda tempo, vigilância, preparação de diferentes provas, separação de alunos, entre outras medidas que parecem não alcançar efetividade

Essa realidade motivou a professora Juliana Alves, do curso de Matemática do Campus de Aquidauana (CPAQ), a buscar desmistificar o assunto em sua tese de doutorado “Cola em prova escrita: de uma conduta discente a uma estratégia docente”, que teve a orientação da professora Regina Buriasco, docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e colaboradora do doutorado em Educação Matemática da UFMS.

A partir de estudos anteriores que evidenciaram a utilização da cola em prova escrita como um recurso à aprendizagem, a professora Juliana ampliou a pesquisa sobre o tema, com base na abordagem Educação Matemática Realística.

“As ações de um professor sempre são voltadas para a aprendizagem de seus alunos. Então, ter consciência de que utilizar a cola contribui para esse fim foi de suma importância no desenvolvimento de minha tese. Mas, buscamos algo mais: partir de uma conduta comum entre os alunos (a cola tradicional, proibida) para um processo de subversão, ou seja, um processo de desconstrução do proibido para o permitido, de um meio fraudulento para um meio de estudo e aprendizagem, de uma conduta discente para uma estratégia docente”, explica Juliana.

Prática

A quantidade de alunos que cola é muito maior aos flagrados, levando a punição apenas dos alunos mais descuidados, segundo a pesquisadora.

“Quando um aluno é pego colando, tanto este como os demais colegas de classe que colam tendem a aperfeiçoar ou modificar suas ações para que não sejam apanhados também. Além disso, as formas de colar têm se modernizado. Os papeizinhos, mesmo ainda sendo uma opção, estão sendo substituídos pelas tecnologias atuais. Então, quando o aluno quer colar, ele busca os meios mais criativos para isso. A internet está recheada de casos assim, e mais, de dicas”, aponta.

O problema ocorre em instituições públicas e privadas e em todos os níveis de ensino, do fundamental à graduação e até em pós-graduações. “Esses aspectos nos levam a conjecturar que não há efetividade nos instrumentos de vigilância e punição, e até mesmo a questionar se é possível eliminar a cola. Jose Abrantes (2008) considera que ‘enquanto houver aluno, escola e prova, sempre existirá, pelo menos, a tentativa de cola’”.

Para reverter esse processo, a professora desenvolveu a pesquisa com acadêmicos da disciplina Prática de Ensino II – Modelagem Matemática e Resolução de Problemas do 4º semestre do Curso de Licenciatura em Matemática, do CPAQ.

“Nós utilizamos a cola em conjunto com uma prova escrita em fases. Esse tipo de prova é resolvida pelos alunos inicialmente em sala de aula sem quaisquer indicações do professor e com um tempo determinado. Depois, nas próximas fases da realização da prova, podem dispor de mais tempo e dos comentários escritos do professor nas resoluções anteriores”, explica.

As aulas da disciplina ocorreriam uma vez por semana. Em cada dia de aula, era realizada uma fase da prova, composta por seis questões.

“Quando o desenvolvimento de uma questão era considerado suficiente, nós a retirávamos de cena. Então, houve fases com todas as seis questões, mas, nas fases seguintes, essa quantidade de questões ia diminuindo de acordo com o desenvolvimento de cada aluno. Nesse período, eles puderam elaborar e utilizar três colas, que eram recolhidas, em cada fase, junto com as provas. E eles se comunicavam entre si, de uma fase a outra, normalmente”.

Segundo a pesquisadora, é comum o cometimento de erros quando se aprende algo. “Entretanto, essa estratégia de avaliação tem propósitos de formação e aprendizagem, por isso o aluno não é punido quando erra, ele tem a oportunidade de refazer ou repensar sua produção na fase seguinte. Quando o aluno acerta, o professor tece comentários para que ele pense em outros desdobramentos da questão ou mesmo em sua resolução. E a cola serve como um recurso de apoio para seu estudo e aprendizagem, sem a pressão do risco de esquecer alguma coisa”.

Para esse modelo, a professora estabeleceu regras como a cola não poder conter resoluções prontas e ter um tamanho limitado, além do diferencial de os comentários do professor terem sido específicos para cada aluno, individualizando a prova.

“Houve uma aluna que não conseguiu resolver uma questão em sua primeira fase porque não lembrava um conceito matemático envolvido e, as informações que tinha levado na cola não tinham sido suficientes. Na fase seguinte comentou que fez uma busca e descobriu propriedades que desconhecia e que resolviam a questão. Eu acompanhava e orientava esse processo por meio de suas colas e sua prova”, coloca.

Juliana explica que a oportunidade de aprendizagem e orientação é dada, mas não é direcionada pelo professor. “O que deve ser colado, quais informações são mais ou menos relevantes, isso fica a cargo de cada um analisar, pesquisar e registrar aquilo que lhe parece mais conveniente, o que possibilita uma tomada de decisão”.

A pesquisadora não indicava o que estava certo ou errado, apenas realizava comentários, perguntas, ou sugeria busca de algum conceito, quando o aluno apresentava dificuldade. Por fim, a correção da prova foi feita pelos estudantes na lousa, seguida de discussão sobre o processo.

“Então, o estudante tem participação ativa nessa estratégia, porque deixa de ser um espectador, que recebe as informações com passividade e depois as reproduz em seus cadernos e provas. Ele se torna participante das discussões em sala de aula e do desenvolvimento das atividades orientado pelo professor, que as conduz de maneira que o estudante se coloque em uma posição de compromisso com a aula e com o próprio processo de aprendizagem. Ele é conduzido a justificar os procedimentos que utilizou, a questionar, a construir rotas de resolução, a expor ideias. Ele tem a oportunidade de perceber seus acertos e erros e de se desenvolver por meio deles. Dialoga com o professor durante suas produções, interage, pesquisa, estuda, enfim, constrói conhecimentos”, completa a pesquisadora.

Os alunos receberam bem a proposta e se engajaram, segundo Juliana, apresentando, em alguns momentos, ansiedade pela correção da professora, para saber se o que estavam fazendo estava certo ou incorreto.

Quanto à cola, as estratégias de pesquisar e registrar fórmulas, que precisavam ser lembradas, assim como informações referentes ao que eles não sabiam, foram as mais prevalentes.

“Houve, porém, alguns casos que despertaram atenção. Por exemplo, um aluno dispunha na cola de informações necessárias para resolver determinada questão, contudo não soube utilizar as fórmulas ou não soube qual fórmula deveria ser utilizada na questão. Outro aplicou corretamente os conceitos colocados na cola, mas seus registros indicavam uma dificuldade no cálculo de outros procedimentos envolvidos. Casos como esses nos levam a conjecturar que, por mais que o aluno disponha de informações e ferramentas necessárias e suficientes para colar na prova, é preciso saber utilizá-las. É preciso ter um mínimo de compreensão daquilo que se cola, ou seja, cola por si só não é suficiente. Ter uma cola, mas não saber utilizar os conceitos matemáticos nela presentes pouco adianta”, expõe a pesquisadora.

Quanto à interação escrita entre professor e alunos durante as fases da prova, afirma Juliana, os acadêmicos destacaram que os comentários escritos da professora auxiliaram no desenvolvimento da avaliação. “Eles voltavam com outros pensamentos; alguns comentários e perguntas os levaram a se interessar por alguns conteúdos e a estudar novamente para fazer a prova; puderam perceber que estavam às vezes por um caminho certo e outras vezes errado; e que sempre tinham de fazer pesquisas de conceitos que não estavam dominando”.

Benefícios

Diante dos resultados, a professora afirma que, usualmente, a prova escrita provoca a cola porque exige do aluno, essencialmente, memorização e repetição.

“Na proposta realizada, foi dada aos estudantes a oportunidade de ampliar seus conhecimentos, em seus tempos e por seus caminhos. Não é um antídoto porque pode não ser possível superar a cola instaurando no lugar outro jogo. Consideramos, porém, que diversificar os meios de avaliar a aprendizagem é melhor que repreensão e vigilância”, afirma.

Da mesma forma, a utilização da cola não é sinônimo de uma prova mais fácil, o que pode ser constatado pelos alunos que participaram do processo. Eles declararam ser a prova difícil, que tiveram que estudar muito, não sendo suficiente apenas dispor das informações, pois era preciso saber utilizá-las, resultado da natureza do instrumento de avaliação, pautado na compreensão e não na reprodução.

Alguns docentes podem ter a ideia de que os alunos não precisariam estudar por estarem com a cola em mãos, “contudo, nós delimitamos o tamanho da cola para apenas um lado de um quarto de folha de papel A4, e manuscrita. Essa escolha do tamanho é arbitrária. Nesse caso, foi assim delimitado para que o aluno fosse levado a fazer escolhas, já que nesse espaço é possível escrever bastante coisa, mas não muito, não tudo”.

A pesquisadora afirma ainda que a permissão da cola também não trouxe prejuízos para a formação, tendo o recurso se revelado favorável ao estudo, à pesquisa e à aprendizagem, tanto para o estudante quanto para o docente.

“Resumindo, para a cola beneficiar professor e aluno, unimos algumas subversões: a utilização da cola como estratégia docente; a realização da prova escrita em fases, retirando a regra de não comunicação que proíbe a cola; o avaliar em lugar de examinar; a personalização em lugar da padronização; o passar da reprodução para a compreensão; a mudança do papel do professor de transmissor para o de guia orientador; a mudança do papel do aluno de receptor passivo do conhecimento para participante. Em outras palavras, não foi somente inserida uma cola em uma prova, foi desenvolvido um instrumento de avaliação em que a reprodução de informações não foi suficiente”, diz.

Assim, a proposta é que a cola perca sua força e finalidade de dar vantagem na nota e se constitua um meio de estudo. “Conforme foi trabalhada, a cola demandou estudo prévio, escolhas (porque o espaço destinado a ela é limitado), análise, produção pessoal e reflexão. Tornou-se a única fonte de consulta permitida no momento da realização da prova e devia ser elaborada pelo próprio estudante. Sua permissão evitou a exclusiva memorização dos conteúdos. A natureza do instrumento de avaliação alterou a essência da cola porque permitiu o dialogar (por escrito) com o professor e com seus colegas fora da sala de aula, possibilitando discussão e aprendizagem”, afirma Juliana.

O processo permite que cada professor tenha autonomia para realizar os ajustes necessários, tanto em relação ao instrumento e dinâmica quanto aos critérios de pontuação, correção e regras sobre a utilização e construção da cola.

“Esta pesquisa se coloca na direção de criar resistências e de lançar possibilidades para a prática do professor que ensina matemática. Os desafios são muitos, por exemplo, como utilizar as Tecnologias de Informação e Comunicação na avaliação? E na cola? O que é preciso ter nos instrumentos de avaliação de modo que a consulta a equipamentos tecnológicos e à Internet não responda de imediato? Ou como o professor do ensino básico, que trabalha com uma grande quantidade de alunos, pode fazer uso de estratégias como essa? Sabemos que a proposta é inusitada, audaciosa e polêmica. Nela não importa se a cola é bem ou malvista; importa que os alunos estudem e aprendam”, completa.

Para acessar a tese, clique aqui.

Paula Pimenta da Assessoria


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