Folclore sul-mato-grossense é rico e diverso, está presente no cotidiano, mas ainda é pouco conhecido

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Banho de São João de Corumbá, único do gênero folclórico no Brasil de acordo com Marlei Sigrist

Foto: Rodrigo Nasccimento/Prefeitura de Corumbá

No dia internacional do Folclore (22/08), cuja data foi oficializada no Brasil em 1965, o Folclore de Mato Grosso do Sul vai muito além de lendas, está presente no cotidiano das pessoas, seja pela comida, bebida, música, tradições, manifestações populares, festas, etc. Recebe influências de outros estados principalmente os que fazem fronteira, como Mato Grosso, Goiás, Paraná e São Paulo, e ainda de países como Paraguai e Bolívia.

Mas ainda é pouco conhecido pela baixa divulgação e quando essa acontece muitas vezes se limita a curiosidades não se atentando à rica diversidade que há nas tradições populares. Marlei Sigrist , folclórologa, pesquisadora, membro da Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore (CSMFL) e da  International Organization of Folk Art (IOV) e integrante da Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul, diz nessa entrevista ser preciso que se preserve as tradições populares pois as pessoas tem que se apropriarem do lugar onde vivem e que quem deseja conhecer mais profundamente o Folclore deve mergulhar na transversalidade das ciências, já que este é plural, diverso e dinâmico.

Qual a melhor definição do Folclore sul-mato-grossense?

Folclore é vida, é presente todos os dias nos hábitos das pessoas. É também pretérito, é memória, pelo que vivenciaram nossos antepassados e souberam transmiti-lo aos seus descendentes, costurando as pontes e os fios da trama que moldaram nossa identidade, aquele sentido de pertencimento a um lugar especial. Mas, acima de tudo, é futuro, pois na reelaboração das tramas do passado, o presente caminha costurando o futuro dos saberes, dos fazeres, dos sonhos e fantasias, das criações, dos modos de ser e estar no mundo na dimensão do popular. É o que se faz presente no nosso cotidiano: polca, chamamé, carreteiro, sobá, sopa paraguaia, viola de cocho, sapateado de catira, Folias de Reis, viola caipira, modão de viola, guampa e tereré, peão tocando boiadas ao som do berrante, chás de ervas compradas nos raizeiros, gritos de sapucay nos bailes de sábados e domingos, festas de Nossa Senhora de Caacupé, de São João, de Santo Antônio, do alho e da farinha, nos bugrinhos da Conceição, na imagem de Nossa Senhora do Pantanal, nas benzeduras e nas promessas, nas formas de pôr a galinha no choco ou no plantio da roça artesanal, no mata-burro e na porteira da fazenda, no chapéu de carandá e na faixa de cintura do pantaneiro, na linguagem mestiça da fronteira – o nheengatu, no doce de jaracatiá, no licor de guavira, no churrasco com mandioca e, principalmente, no bater mais forte do coração, quando nos lembramos de todas essas coisas que nos dizem que pertencemos a esse lugar.

Por que o folclore de Mato Grosso do Sul é pouco conhecido?

Eu acredito que seja pela baixa divulgação que se tem sobre essa questão aqui em Mato Grosso do Sul. A prioridade que se tem no campo das mídias tradicionais (impressas e televisivas) é sempre para a economia, para os problemas sociais e da saúde. Quando abrem um pequeno espaço para a cultura, a prioridade é para os aspectos da indústria cultural, dos artistas mais midiáticos, que estão em voga no momento. Outras artes aparecem menos e a cultura popular tradicional – o folclore, fica à margem da circulação das notícias. Portanto, sem se fazer presentes, permanecem no desconhecimento, no anonimato. Só vão se lembrar dele no Dia Mundial do Folclore e, mesmo assim, pensam somente nas lendas, como se folclore fosse apenas isso.

O setor do Turismo e da Educação também pode explorar o Folclore do Estado  com publicações bilíngues de alta qualidade, produções de audiovisuais que possam ser veiculados fora do Estado e do Brasil. São materiais importantes na divulgação do Estado, afinal são uma espécie de grande vitrine para o público em geral. Nesses materiais devem englobar não somente a natureza a ser explorada, mas também a cultura em toda sua amplitude.

O turista quando chega no local, vai consumir os passeios nos rios, cavernas, etc., mas também quer saber o que temos de cultura a oferecer a ele em outros momentos: comida e bebida típicas (folclore), arte, música típica da região (folclore) e música comercial local, artes visuais: artesanato tradicional (folclore), histórias da memória local (maioria do folclore), danças típicas do local (folclore) e assim por diante. Se houvesse maior investimento na divulgação do que temos por aqui, teríamos maior visibilidade.

 O nordeste brasileiro já faz isso há muitas décadas e atrai muitos turistas por isso. Ao mesmo tempo dá visibilidade para os próprios cidadãos, habitantes do lugar onde vivem, que aprendem a valorizar o seu patrimônio imaterial e material. A motivação para o maior fluxo de turista no Brasil não são as praias do nordeste (estas estão em segundo lugar), são os festejos populares, como: carnaval, festas de santo (Círio de Nazaré, São João de Campina Grande e Caruaru), Romaria a Juazeiro, festas de Iemanjá, Oktoberfest, Festa do Vinho, da Uva, e de outros produtos do agronegócio, Festas de Rodeio, e tantas outras pelo Brasil inteiro. A grande maioria são festas populares tradicionais.

Lembro do nosso São João de Corumbá, único no gênero no Brasil. Penso, então, o quanto Mato Grosso do Sul está tímido diante de tantas possibilidades. E quando acordar, que o faça com respeito aos grupos tradicionais, sem querer maquiar o trabalho deles, que seja parceiro das tradições que eles mantêm.

Em seu livro Chão Batido, dividiste Mato Grosso do Sul em três grandes regiões; Bolsão, Pantanal e de Fronteira. Quais as principais características de cada uma e suas influências no folclore do Estado?

Procedi dessa maneira para facilitar o entendimento das diferenças culturais em regiões com contornos ambientais distintos, com histórias da formação da população também distintas, porém as características do folclore de uma região são perfeitamente encontradas em outras, dada a circulação das pessoas e trocas culturais que acontecem constantemente.

A região do Bolsão, que compreende todo o entorno da Bacia do Rio Sucuriú, se caracteriza pelo Cerrado, povoada por grupos de pessoas que se deslocaram, principalmente, dos estados vizinhos: Goiás, Minas Gerais, São Paulo. A história nos conta que o trânsito dessas pessoas se deve muito aos caminhos das estradas boiadeiras e das tropas de cavalos e burros. Mas, muito antes disso, foi também caminho das entradas e bandeiras que traziam gentes destemidas para adentrar o sertão oeste. Alguns permaneceram e fundaram vilas. Carregavam uma bagagem cultural caipira: na alimentação, no linguajar, na musicalidade das violas caipiras (herança dos portugueses), das modinhas, na religiosidade, nas formas de trabalho, de constituição familiar, etc. Na convivência com os índios, também foram incorporando muitas de suas técnicas de construção rústica, de caça, de modos de produzir alimentos, enfim….

A região das Fronteiras com os países vizinhos sofreu, grandemente, a influência da cultura espanhola e da cultura guarani. Isso vai influenciar na musicalidade que utilizamos (polca, chamamé, música andina), no artesanato (renda nhanduti, utilização das tecelagens dos aguayos), na alimentação (sopa paraguaia, chipa, locro, bori-bori, saltenha, arroz boliviano), na linguagem mestiça da fronteira (yopará/nheengatu), só para citar alguns aspectos culturais do folclore.

Na região do Pantanal, outra geografia, com influências: de portugueses a partir de Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres; de colonos espanhóis vindos pela Bacia Platina e de cuiabanos e de cidades vizinhas (em sua maioria afrodescendentes), além de indígenas que habitavam o Pantanal, possibilitou trocas culturais. Estas podem ser percebidas também na alimentação tradicional (carne seca, banana da terra), na linguagem, nos cantos de cururu e de siriri, na viola de cocho, nas formatações das festas em fazendas, nos bailes com rasqueados….

Em relação às danças folclóricas no Estado quais a senhora destacaria?

Posso destacar as danças do Cerrado como: Catira, Engenho de Maromba, Engenho Novo, Cirandinha de adultos, Revirão. Das fronteiras: Polcas e Chamamés em suas variantes e as Chovenas em menor escala. Do Pantanal destaco: Siriri e Rasqueado.

Podemos pensar, também, nas projeções do folclore nessa área e na área musical. As projeções artísticas são facilmente encontradas em grupos que estudam tais manifestações folclóricas e projetam em seus trabalhos artísticos. Assim, temos o Grupo Camalote que tem um repertório de 32 danças entre as parafolclóricas e as danças de criação a partir de lendas ou outras representações.

A projeção do folclore no campo musical posso citar, por exemplo, o movimento da Polca Rock, em que os compositores beberam na fonte do folclore e criaram a junção deste com a linguagem moderna do rock. Assim também o fez Vila Lobos em suas composições eruditas, que bebeu muito na fonte do folclore para compor suas belíssimas Bachianas Brasileiras.

As possibilidades de ler o folclore são infinitas, basta ter olhar atento, saber discernir entre o folclore, o parafolclore, as demais projeções, que têm cada qual um grau de relação maior ou menor com o folclore original.

Por que o Folclore é um tema tão complexo e transversal?

O Folclore abarca boa parte do conhecimento humano: relações sociais, religiosidades, geografia, história, botânica, comunicação, artes, linguagem, literatura, construção artesanal de habitação, de maquinaria, de utensílios domésticos, formas de trabalho, mundo do sagrado, estudo dos astros, ritos e rituais. Enfim, uma infinidade de saberes tradicionais que, antes, deram origem aos saberes mais codificados e avançados das ciências oficiais.

A pessoa que deseja conhecer mais profundamente o Folclore precisa mergulhar em diversas áreas do conhecimento para entender a Ciência do Folclore, que nunca anda só, mas de mãos dadas com outras Ciências.

Qual a diferença entre mito e lenda folclórica?

Ambos são formas narrativas, porém, o mito nasce a partir de algo fantástico, um ser com poderes sobrenaturais que comanda uma série de eventos. Os mitos do folclore são personagens conhecidos como: Lobisomem, Saci Pererê, Minhocão, Bicho Pé-de-Garrafa, etc. Existem os mitos universais, comuns em vários países, os mitos regionais e os mitos locais.  Sobre eles existem muitas narrativas que explicam seus feitos e poderes. Os mitos servem para explicar o inexplicável do mundo. Simbolicamente funcionam como um estabelecedor de limites; assim como a Lei, com seus códigos, funcionam para nós: nos dizem até onde podemos chegar e se ultrapassarmos seremos punidos.

A lenda existe para explicar a origem das coisas, o porquê essas coisas existem no mundo. A maior parte das lendas brasileiras são narrativas apreendidas das culturas indígenas, em que para eles tem toda uma simbologia especial e sagrada, mas para nós, não-índios, foram incorporadas a nossa memória com outras significações. Para o estudo do folclore importa como acontece o entendimento das lendas entre nós. As lendas para os indígenas têm outros significados e fazem parte dos estudos etnográficos da antropologia. São entendimentos distintos.

Como surge uma lenda folclórica?

A lenda surge a partir do momento que existe a necessidade de explicar a existência de algo, sem que se tenha conhecimentos prévios mais convincentes e científicos.

Por que é preciso preservar as tradições folclóricas?

É importante a preservação das tradições para que nós, sul-mato-grossenses, nos sintamos parte de uma cultura específica, a nossa cultura diversa, mas que é o nosso retrato. As pessoas que perdem o vínculo com o lugar onde vivem ficam sem referência identitária, são apenas parte do mundo que é comum a todos, não há especificações para apresentar como sendo suas. Nesse momento, em que a globalização está em nós por vias digitais, os países, cada um a seu modo, está dando maior importância a cultura tradicional, para marcar as suas diferenças em relação aos demais. Há um movimento em sentido contrário buscando, cada qual, projetar-se diante do diferente.

A senhora tem contribuído para o projeto Estação Folclore, quais são as pretensões desta iniciativa?

A Estação Folclore é um nome fantasia que criamos dentro da Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore, para atender aos projetos e, também, para tornar-se um espaço que abriga o Folclore no estado. Há vinte anos apresentamos um projeto para instalação da Estação Folclore em um prédio, um espaço físico onde as pessoas possam visitar, participar de cursos e oficinas, consultar a biblioteca, participar de aulas de danças folclóricas, possibilitar o encontro de Mestres Populares, de grupos folclóricos, visitas às exposições de artes populares. E que, também, aconteçam eventos culturais abertos aos turistas, à sociedade em geral, aos professores e aos alunos desde o ensino fundamental até o universitário. Que seja um local de estudo e de encontros.

Porém, até o momento nenhuma porta se abriu, nenhum espaço físico nos foi destinado.  Posso afirmar que não há, no estado de Mato Grosso do Sul, um espaço com todas essas características para abrigar especificamente o folclore, as raízes culturais e tradicionais do estado. O que é uma lástima!

Os trabalhos voluntários que desenvolvemos estão muito dependentes de parcas parcerias e disponibilidades de espaços emprestados com muita dificuldade. Creio que já passou da hora de alguém olhar para esta questão e nos ceder um espaço físico digno, a altura das nossas ricas tradições.

A Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore tem um trabalho intenso no campo da Educação, desenvolvendo vários projetos pela Estação Folclore. Quem quiser saber mais, estamos no blog: www.estacaofolclore.blogspot.com.br  e também nas redes sociais como Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore (CSMFL)

 

Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul


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