Dicas do isolamento: Valorize o estar só, com um livro

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Nesses dias de coronavírus é preciso aprender a ficar só

Genival Mota. (foto: arquivo pessoal)

Ler é valorizar a solidão. Quem lê nunca está verdadeiramente só. Mas sempre quer ter seus momentos de solidão acompanhada. O ditado popular diz: “antes só que mal acompanhado”. Mas quem está com um bom livro, sempre está bem acompanhado. 

Na leitura solitária fazemos uma introspecção; uma auto-análise. A leitura é uma conversa a três. O nosso eu, o eu do autor e o conteúdo da narrativa. Forma-se uma corrente difícil de quebrar. Sentimos que estamos investindo no tempo e não perdendo tempo. Estar sempre na presença de pessoas atrasa o pensamento. É preciso ter momentos de leitura e reflexão a sós. São nesses momentos que a leitura nos permite que leiamos a nós mesmos. E é justamente isso que constitui a leitura: o decifrar do nosso eu, do nosso mundo interior.

A leitura não é um estado passivo. Ela é uma interação muito produtiva entre o texto e o leitor. Essa interatividade atinge tal grau de concentração e abstração da realidade quando nos entregamos e até nos esquecemos do lugar em que estamos ou dos barulhos do ambiente. Essa entrega no momento da leitura, permite mergulhar para dentro, trazendo leveza e auto-percepção. 

Quando começamos o contato com um livro entramos em dois estágios: conhecido e desconhecido. Como somos letrados, vamos avançando através do que conseguimos identificar nas palavras e frases. Mas o autor ou autora nos propõe algo que vamos conhecer conforme formos avançando na leitura. Esse avançar possibilita aprofundarmos as percepções da narrativa no plano do enredo e das pistas falsas ou verdadeiras que o narrador apresenta pelo seu discurso direto ou através das vozes das personagens.

Isto aguça nossa curiosidade e dizemos para nós mesmos que somos capazes de descobrir o desenrolar dos acontecimentos e chegar ao final. E a leitura solitária nos permite um melhor desempenho no entendimento do texto. Essa reflexão tranqüila e sem interrupções permite níveis de compreensão que dificilmente teríamos com leituras coletivas.

Marcel Proust registrou em um dos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, sobre a leitura a sós: “Na espécie de tela colorida de diferentes estados, que minha consciência ia desenrolando simultaneamente enquanto eu lia e que iam desde as aspirações mais profundamente ocultas em mim mesmo até a visão puramente exterior do horizonte que tinha ante os olhos; o que havia de principal, de mais íntimo em mim, o leme em incessante movimento que governava o resto, era a minha crença na riqueza filosófica, na beleza do livro que estava lendo, qualquer que fosse esse livro”.

Realmente sentimos que durante a leitura, são como que executados incessantes movimentos de dentro para fora, em busca da realidade, e surgem emoções que proporcionam, a nós leitores, “agir”, “participar”, pois nos momentos em que estamos lendo, nossas mentes se enchem de acontecimentos dramáticos, que muitas vezes até superam as experiências reais. Pratique estes exercícios mentais, valorizando estar só, com um bom livro!

Ler é essa experiência única que promove nossa saúde mental mesmo em tempo de pandemia.

 

Genival Mota, autor, professor e apresentador do programa Cult


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