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‘As sogras vão para o céu’

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*Por Thereza Hilcar

Em homenagem à minha querida ex-sogra, amiga querida, dona Thereza Mansur Wendling, que partiu na manhã desta quinta-feira, 25 de janeiro de 2018.

As sogras vão para o céu – Crônica publicada em 2012 no Jornal Correio do Estado

Eu cheguei bem perto do ouvido dela e falei: me perdoa. Ela respondeu que não havia nada para perdoar; mas eu sabia que havia sim, e muito. Depois de três décadas, dois netos, uma separação, muitas distâncias, várias internações hospitalares, e a fragilidade do seu corpo de 84 anos, eu, finalmente, conseguir admitir: minha culpa, minha máxima culpa. Sogras deviam ir direto para o céu, eu disse. Ela sorriu. Abraçamos-nos.

Nós, as noras, chegamos devagarzinho, sorrateiramente, com sorrisinhos e mesuras, e levamos seus meninos. Sem dó, nem piedade. Com toda pompa e circunstância. Nem nos damos conta das suas histórias. Não nos preocupamos em saber que elas, as sogras, geraram, pariram e cuidaram dos nossos homens. Não ligamos quando falam dos primeiros anos, dos boletins escolares, do quanto choraram as ausências, as dores, as dúvidas os primeiros amores. Que diferença faz saber que passaram noites em claro rezando pela segurança dos rebentos, amainando seus medos infantis, dando coragem para ir em frente. Alguém, provavelmente que nunca teve filhos, escreveu certa vez: “seus filhos não são seus filhos…”. Um tolo. Filósofo de bobagens, com certeza.

Pois se não são, por que haveríamos de cuidá-los, niná-los com canções, sofrer por cada espirro, cada cólica, cada machucado? Por que então nos deixam dar a eles nosso colostro? Por que nos deixam apegar ao choro, às fraldas, ao primeiro sorriso, a primeira palavra, aos primeiros passos? Por que não nos os levam pra longe de nós enquanto não aprendemos a distinguir seus choros? Por que nos deixam apegar ao primeiro sorriso, a primeira palavra, aos primeiros passos?

Se não são nossos filhos, deveriam ser levados pra longe de nós ao nascer. Ainda com o toco do cordão que nos liga. Aí seriam cuidados por outros, pessoas mais bem treinadas, sensatas, ajuizadas, mais profissionais, digamos assim. Não entendo por que nos deixam errar e acertar, acertar e errar? Se não são nossos filhos, porque nos deixam amá-los tanto a ponto de lhes dar a própria vida se for preciso?

Ao invés disto, criamos mais cordões. Apegamos-nos a tudo deles. Conhecemos cada detalhe da voz, do sono, dos cabelos, dos suspiros, das palavras interrompidas e das que não são ditas. Aprendemos a conhecer suas fraquezas, suas forças desmedidas e surpreendentes. A capacidade de superar, de perdoar, de querer e conseguir. E quando estão prontos, quando finalmente nossa obra se completa chega alguém de mansinho e os carrega pra bem longe de nós. Passamos de imprescindíveis a incômodas. Totalmente desnecessárias. Com o tempo vêm as comparações, as intrigas sem sentido, os ciúmes, a distância e, mais tarde, o risco da indiferença.

É preciso viver, sofrer, aprender para finalmente reconhecer que fomos tolas. Que não prestamos atenção na vida, no outro: que não prevemos o futuro – embora devêssemos. Que amar o mesmo homem, ainda que de maneira distinta, deveria unir as mulheres. Não separá-las. Que amor é diferente de apego. Que a paixão passa. E embora tenhamos dois caminhos para o crescimento – do amor e da dor – escolhemos sempre o último. Ainda não descobriram por que. Preferimos nos partir ao meio ao invés de envergar, como na fábula do pinheiro.

Então ela me olha novamente e diz que está tudo bem. Somos amigas agora. Mas só agora? Não, há muito tempo, ela responde com voz mansa e tranquila. Digo que uma vida só não basta para pedir desculpas pelas minhas tolices, pela insegurança, pela disputa inglória. Por tantas vezes que a julguei, dificultei encontros, alimentei disputas, me intrometi. Por todas as vezes que não cresci. Me perdoa! Ela pega minha mão e diz que me ama. Apesar de tudo ela me ama. E eu a amo profunda e verdadeiramente. Sogras são nossas mães pelo avesso. E deviam ir direto para o céu. Sem escalas.

Thereza Hilcar é jornalista e escritora.

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