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4 de fevereiro de 2023 - 05:25

Almir Cunha: A Cachaça de Acara

  Almir Cunha – Itapipoca / Ceará

Estive no Estado do Pará, mas já voltei para Itapipoca/Ceará. Não chegou a ser beeemmm uma Odisseia, mas, dá uma história. Antes, porém, quero dizer que fiquei muito feliz com as mensagens enviadas ao meu celular, pelos meus amigos e familiares durante esta jornada ao Pará.

Principalmente com esta mensagem, que neste instante transcrevo integralmente e que acabou interferindo na minha decisão de voltar pela enésima vez ao valoroso Ceará. Ei-la: “Esse é o meu… às vezes é jornalista, outras vz bancário, em outras, operário ou prof d Francês. Nasceu no Mt G d Sul, mas é cearense. E ta querendo morar no Pará… Quem é vc!? Não sei. Só sei q é mt importante p. mim…”

Rapaaaazzzzz! Como foi bom ler isso. Vamos então, à história. Vou explicar tudo o que aconteceu durante a viagem. Inclusive esse título estranho “A cachaça de Acará”. Acompanhem o raciocínio. Tudo começou assim. Após um trabalho na obra do Pedrinho (Antonio Pedro Mendes Filho) em Salvador, estava eu em pasmaceira absoluta na minha querida cidade de Itapipoca, pensando se voltava para a lida na construção na Bahia ou se fazia um concurso no Estado do Pará.

Predominou a segunda opção. Resolvi fazer o concurso. E então, parti para Belém, a capital do Pará. (mas o concurso mesmo seria no interior do estado… na cidade de Acará).

Belém me impressionou muito pelo seu gigantismo. Eu sabia que era grande, mas não tanto. Só que no primeiro momento eu me precipitei e enviei mensagem pelo celular para os meus amigos elogiando a organização do trânsito (mas, depois eu falo o que aconteceu).

No entanto, tragédia mesmo, daquelas bem gregas, foi quando cheguei a Acará. Meu Deus! Que cidade horrorosa. Parecia cenário de “faroeste”, misturado com uma feira paquistanesa. Esgoto a céu aberto. Barracas amontoadas onde se vende de tudo. Na rua que beira o rio uma monteira de carros, motos, gente, bicicletas. E o mais impressionante: urubus para tudo quanto é lado. Eles disputavam as carcaças de frango e outras “iguarias” apreciadas pela ave-símbolo do Flamengo. Tudo isso praticamente ao lado de onde se vende comida. Fotografei o cenário caso alguém venha a duvidar deste meu relato.

De bonito mesmo, eu vi o imenso Rio Acará e a imponente Floresta Amazônica na outra margem.

Pensei comigo: “Isso não há de ser nada! Esse cenário urbano desfavorável pode ser modificado”.

Procurei um hotel e achei um, que para se chegar nele tinha de subir uma escada igual àquelas de quartel de bombeiros. Também tirei fotos, caso alguém imagine que estou exagerando. Desisti desse. Procurei e encontrei outro hotel, tão espelunca quanto o primeiro. Mas, resolvi ficar. Estava muito cansado, precisava fazer a barba, e pelo menos esse não tinha escada. Tomei um banho e aí deu uma baita fome. O duro é que me lembrei das barraquinhas que vendem comida, rodeadas de urubus disputando os restos e carcaças.

Foi então, que eu resolvi ir até a rodoviária antiga. Lembrei-me de ter visto fumaça saindo de uma churrasqueira. O visual também não eeeera agradável, mas, pelo menos não tinha urubus. Tinha um sujeito com uma camiseta cavada, do Botafogo, com os pelos do sovaco à mostra, assando bistecas.

Pedi uma. E já estava comendo quando ouvi e vi o tal churrasqueiro, que assava as bistecas, tirar sarro em todo mundo que passava com camiseta do Flamengo: “Oh! Foi de quatro!”.

Ele fazia referência ao sacode que o Corinthians deu no Fla, no dia anterior, aplicando uma dolorosa goleada no meu querido rubro-negro. Situação que eu havia tomado conhecimento em Belém, quando comprei um jornal. Quadro este que deve ter agrado muito os meus amigos e sobrinhos José Ribas WoitschachGabriela JanuárioEvani Cristiane MenezesMatheus Rossi.

Fiquei pensando nos meus irmãos Adonis FariasMarcelo Gama CunhaGustavo Albuquerque, Juninho CiaHair JunioreWilli,e outros sobreviveram ao massacre.

Mas o chato, é que eu senti certa maldade naquele sujeito seboso. Uma conotação de duplo sentido, uma brincadeira totalmente maliciosa, sem graça…

Passou outro flamenguista e ele falou: “Oh! Foi de quatro!” Fiquei com mais nojo dele ainda. Pensei comigo: ‘se ele disser mais uma vez: “Oh! Foi de quatro!” eu vou esfregar essa bisteca debaixo do sovaco dele”. Como eu percebi que ele iria prosseguir com aquela brincadeira maldosa, fora de hora e inconveniente, resolvi comer rapidamente a bisteca, para não ter que desperdiça-la naquele sovaco.

Comi e fui percorrer a cidade. Percebi que o movimento estava diminuindo. O comércio fechando. Quando deu uma hora da tarde a cidade ficou deserta. O comércio já quase todo fechado. A as pessoas sumiram das ruas. Só ficaram os urubus. Depois me disseram que isso é uma rotina diária. Fecha-se tudo para uma deliciosa soneca.

Resolvi voltar ao hotel. Deitei-me em uma cama, que apesar de dura, afundava. Baratas passeavam pelo quarto do Hotel da Bené. A televisão mal funcionava.

Rapaz!!!! Resolvi ir embora de Acará. Catei as minhas coisas, devolvi a chave. Nem fiz questão de pegar o meu dinheiro de volta (não sei também se devolveriam) e corri para rodoviária nova, com o intuito de pegar o último ônibus do dia para Belém. A balsa já concluía a travessia do rio Acará. Consegui embarcar e fui embora feliz, de Acará. Desisti do concurso. Agora eu era apenas um candidato a menos.

Já saindo da cidade, uma mulher subiu com uma caixa de papelão. Acondicionou-a no compartimento lateral, que fica logo acima da cabeça dos passageiros. Acontece, que em uma curva mais fechada a caixa caiu, provocando um ruído de vidro se quebrando. E logo, um cheiro de cachaça empesteou o ambiente.

Alguns começaram a rir. O cobrador apareceu com cara de bravo e perguntou: “o que é isso?”

Um gaiato respondeu rapidinho: “Ué! Não conhece cheiro de cachaça não?”

E todo mundo começou a rir. Eu tentei não rir, mas não consegui. Todos gargalharam até se fartar do pobre cobrador, que virou alvo da pilhéria da cachaça de Acará. Nada mais restou ao infeliz cobrador, a não ser esboçar um breve sorriso amarelo e regressar à cabine do motorista em busca de refúgio, como se de fato não soubesse identificar um odor etílico.

A dona da cachaça, por sua vez, levantou-se e gritou ao motorista: “Para na PRACA!”.

A “PRACA” que ela se referia era um ponto na rodovia, onde havia uma “PLACA”.

Ela desceu, foi-se embora levando a caixa de papelão. Mas, deixou aquele cheiro nauseabundo de aguardente, destilada a partir sabe-se lá do quê. E também deixou aquela palavra martelando na minha cabeça: “PRACA!”… “PRACA!”… “PRACA!”…

Eu que já tomei tanta cachaça na minha vida, inclusive, a famosa bagaceira de Mansidão, Bahia, fiquei com o estômago embrulhado. Quase que a bisteca daquele botafoguense debochado volta. Mas, consegui me conter, ou melhor, consegui conter a bisteca no meu interior, no meu íntimo. Naquela altura do campeonato a bisteca insistia em ficar passeando. Indo pra lá e pra cá. É como se dissesse: “olha que eu vou sair, heim!!!”.

A minha imaginação voava. Ficava tentando imaginar o que serviu de base para o feitio daquela cachaça. Todos os elementos da Tabela Periódica passaram pela minha cabeça, inclusive Urânio e toda sorte de derivação de sulfetos e sulfatos.

Chegamos à Belém. E o tumulto de final de dia desmontou a bela imagem que eu havia feito a respeito da organização do trânsito. Vi um acidente muito grave envolvendo um motociclista. E ficamos presos em um trânsito lento, um engarrafamento de quase quatro horas.

Alguém passou e disse: “É um protesto!”.

Foi ponto de interrogação para tudo quanto é lado. “Quem protestava?” “Contra quem protestava?”

Foi a análise sintática mais besta que eu já fim em minha vida. Cheguei à rodoviária de Belém sem conseguir determinar o sujeito, o predicado e muito menos a transitividade do verbo.

Desci aliviado. Mas, logo em seguida bateu deprê. Afinal, o projeto “Almir em Acará”, morreu no nascedouro.

Estava triste, sentado em um banco de rodoviária com muita vontade de voltar para o Ceará, para os “braços de Itapipoca”. Pensei também em ir para o Amapá. E de lá, quem sabe, talvez, sair “à francesa”, para a Guiana Francesa. Itapipoca é para mim como uma mulher: cheirosa, de fala macia, quadril largo. E o Amapá? Uma mulher também. Só que desconhecida e que eu só vi em fotografias.

Foi aí, que recebi a mensagem tão linda que eu descrevi no início desse artigo: “Esse é o meu… às vezes é jornalista, outras vz bancário, em outras, operário ou prof d Francês. Nasceu no Mt G d Sul, mas é cearense. E ta querendo morar no Pará… Quem é vc!? Não sei. Só sei q é mt importante p mim…”

Meus amigos, concluí então, que o melhor é viver com as pessoas que gostam da gente, que cuidam de nós, que manifestam o seu sentimento. Me senti importante pela primeira vez em muitos anos. Saltei do banco e empreendi imediata viagem de volta para a minha… “Ceará”.

 

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